(Como dar início à construção de um diálogo na prática, utilizando exemplos e o referencial teórico sobre o assunto)

A princípio, para começarmos a construção de um diálogo, podemos recorrer aos quatro passos para se estruturar um capítulo com foco em diálogo, da autora americana Gloria Kempton[1], quais sejam: 

1) focar no personagem e no cenário. Já comece com o nome do(a) personagem, ele(a) é o(a) mais importante; 

2) o narrador deve entrar na mente do personagem e descrever a percepção que o(a) personagem tem de si e da situação ao seu redor;

3) mover o(a) personagem para a ação; e

4) o diálogo propriamente dito. 

Por exemplo, imagine que o(a) seu(sua) personagem está sendo submetido(a) à uma entrevista de emprego. Como poderia ser a situação narrativa que antecede o diálogo?

Fulano(a) de tal está sentado(a) em uma cadeira observando a sala de espera à sua volta… Ele(a) pensa, sobre si, o que ele(a) é, onde está, o que está fazendo ali, o que está sentindo… Ao ser anunciado(a) pela secretária, decide levantar-se e caminhar em direção à porta do(a) salão/sala principal. Ao adentrar no novo recinto, entra em contato visual com alguém (outro personagem) e dá início a um diálogo protocolar:

 — Bom dia!

Veja que o diálogo foi introduzido utilizando a regra mais convencional (verbo de locução, dois pontos e travessão), sendo registrado de forma direta, onde “as falas dos personagens são reproduzidas no texto como se eles mesmos estivessem falando”,[2] e o diálogo entre os personagens é exposto em discurso direto, em uma narrativa de primeira pessoa.[3]

Exemplos de como construir um diálogo

Para desenvolver a construção de um diálogo (qualquer), também podemos recorrer a algumas possibilidades, como aquelas que são apresentadas por Umberto Eco, na Apostila do Nome da Rosa, que nos convidam a observar algumas diferenças entre cinco versões de um mesmo diálogo:[4]

— Como vai você?

— Nada mal

.

— Como vai você? diz Jean

— Nada mal e você? diz Pierre

.

— Como, diz Jean, como vai você?

— E Pierre imediatamente: – Nada mal e você?

.

— Como vai você? se apressa Jean

— Nada mal e você? caçoa Pierre

.

Jean diz: Como vai você?

 — Nada mal, responde Pierre, de um caminho incolor.

Depois com um sorriso indefinido: — e você?

Por certo, esta relação comparativa vai permitir a(o) autor(a) iniciante perceber a diferença de sentido, dependendo da ênfase que queira dar à construção de um diálogo, e pode mostrar mostrar-lhe, ainda, o que é uma economia vocabular e um texto mais estendido.

Em suma, note que a relação entre diálogo e discurso direto é íntima e estrutural: podemos dizer que o discurso direto é a principal ferramenta gramatical e sintática pela qual o diálogo se manifesta na literatura e na produção de textos.

Então, recapitulando as regras para a construção de um diálogo Cândida Gancho (2002: 33), citada por Fátima Silva (216: 148), [5] nos informa que:

Discurso direto: “É o registro integral da fala do personagem, do modo como ele a diz. Isso equivale a afirmar que o personagem fala diretamente, sem a interferência do narrador, que se limita a introduzi-la”. Há  duas maneiras principais de registrar o discurso direto, como se pode ver nos exemplos extraídos de obras literárias, quais sejam:[6]  

Regras para a construção de um diálogo

1) A mais convencional: a) verbo de elocução (falar, dizer, perguntar, retrucar, etc.); b) dois-pontos; c) travessão (na outra linha).  
1.1 Variantes da forma convencional:
a) “O personagem fala diretamente, isto é, sem ser introduzido, e o narrador se encarrega de esclarecer quem falou, como e por que falou”.
Exemplo:
 — Mãe – ela gritou – chegou flor pra você. (BOJUNGA, 2015, p. 21).  
b) ‘Em vez dos travessões para isolar a fala do personagem, encontramos outra pontuação: vírgula, ponto, etc. Só permanece o travessão inicial”.
Exemplos:
— Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?
— Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim. (LOBATO, 1959, p. 186)  
E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.
— Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
— Não diga isso, murmurou ele. (MACHADO DE ASSIS, 2016, p. 3)  
c) “Várias falas se sucedem sem a presença notória do narrador; apenas se sabe o que fala cada personagem, porque há mudança de linha e novo travessão”.
Exemplo:
— Eu te livro desse amor, desse peso.
— O quê?
— Esse amor que você está sofrendo, essa vontade que você está sentindo de morrer: eu te livro disso.
— De que jeito?!
— Quando a história estiver pronta você vai ver.
— História? que história? (BOJUNGA, 2015, p. 98-99)  

2) “Usando aspas no lugar dos travessões: a) verbo de elocução; b) dois-pontos; c) aspas (na mesma linha)”.
Exemplo:
[…] com orgulho expectante entregou sua estranheza àquele homem: “Você não é mais a mesma”, disse ele (COLASANTI, 1986, p.165).  
2.1 Ou ainda, sem os pontos:
Exemplo:
“Este é aquele com quem viverás para sempre”, disse o chefe da caravana à mulher. (COLASANTI, 1986, p. 47).

Dicas:

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Notas

[1] De acordo com SPORH, Eduardo, Escrita criativa: 4 passos para se estruturar um capítulo. Vídeo sobre o texto Dialogue, técnicas e exercícios para construir um diálogo efetivo, de Glória Kempton (ver bibliografia).

[2] Conforme Ana Trinconi et. al. (2019: 145).

[3] Conforme Fernanda Baccaro et. al. (2023: 74).

[4] Conforme Umberto Eco (1985), citado por TAUVERON, C. A. A escrita “literária” da narrativa na escola: condições e obstáculos. In Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n.52, Editora UFPR, p.85-101,abr./jun. 2014 (pag. 94).

[5] DE acordo com GANCHO (2002, p. 33) citada por SILVA, Fátima A. M. Leitura e escrita criativa nos anos finais do ensino fundamental (dissertação de mestrado). Jacarezinho: Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, 2016 (pág. 148).

[6] Com exceção dos exemplos extraídos de obras literárias, todos os textos citados no quadro são de autoria de Gancho (2002: 33) e citados por Fátima Silva (2016: 148).


Bibliografia

BACCARO, Fernanda; FERNANDES, F. Orci; ROSÁRIO, K. N. Silva & ROCHA, Bráz. Língua Portuguesa – Ensino Médio – Volume 1, 1ª Série – Leonardo Da Vinci (Coleção Lumen): Poliedro – Sistema de Ensino, 2023 (pág. 74)

SILVA, Fátima A. M. Leitura e escrita criativa nos anos finais do ensino fundamental (dissertação de mestrado). Jacarezinho: Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, 2016 (pág. 148).

TAUVERON, C. A. A escrita “literária” da narrativa na escola: condições e obstáculos. In Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n.52, Editora UFPR, p.85-101,abr./jun. 2014 (pag. 94).

TRINCONI, Ana; BERTIN, Terezinha & MARCHEZI, Vera. Teláris Português 6º ano. 3 ed. São Paulo: Ática, 2019 (pág. 145).


Outras referências bibliográficas

SPORH, Eduardo, Escrita criativa: 4 passos para se estruturar um capítulo. Vídeo explicativo que traduz as dicas contidas no texto, Dialogue, técnicas e exercícios para construir um diálogo efetivo, da escritora americana Gloria Kempton (2004). Divulgado em 14/07/2018, disponível em Escrita criativa: 4 passos para se estruturar um capítulo. Acesso em dez/2023. 


Por Francisco Hélio de Sousa

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